Cosmologia antiga
COSMOLOGIAS ANTIGAS
A Cosmologia Hinduísta
Afora algumas exceções, não existem historiografias no sul da Ásia nos mesmos moldes daquelas desenvolvidas pelas tradições gregas, árabes e europeias. Essa ausência de historiografia dificultou a datação dos textos sânscritos e reforçou a tendência de se conceber a Índia como uma realidade
a-histórica, mítica e irracional em comparação com o Ocidente – visto como histórico, científico e racional. A concepção da Índia como “alteridade” irracional do Ocidente determinou a ocultação de um forte elemento “racionalista” na cultura hindu (a ciência do ritual, a gramática, a arquitetura, a lógica e a
filosofia) e a minimização da dimensão mítica do pensamento ocidental. No entanto, é fato que o hinduísmo produziu narrativas míticas elaboradas, nas quais não existe uma distinção clara entre “história”, “hagiografia” e “mitologia.
Os Puranas, “estórias de um passado remoto”, constituem um corpus complexo de narrativas que contem genealogias de deuses e de reis, cosmologias, códigos legais, e descrições de rituais e peregrinações a lugares sagrados. Embora nenhum texto siga rigorosamente este padrão, os Puranas
abarcam, tradicionalmente, cinco tópicos:
a criação ou manifestação do universo;
a destruição e a re-criação do universo;
genealogias de deuses e sábios;
os reinados dos quatorze Manus, progenitores mitológicos da humanidade;
a história das dinastias solar e lunar, às quais todos os reis remontam suas origens.
Conforme se pode constatar: nas cosmologias hinduístas, não aparece o conceito de Criação, central na tradição ocidental, e que provém do judaismo e posteriormente foi assumido pelo Cristianismo. O Universo é concebido como cíclico, estando sujeito à períodos de manifestação e de dissolução. Também se pode verificar que há uma espécie de justificação divina do poder dos reis, tal como existiu no Ocidente, antes das modernas teorias do contratualismo, que negam a origem divina do poder real.
O cosmos em sua totalidade é habitado por várias espécies de seres; humanos, animais, plantas, deuses, cobras, ninfas, músicos celestiais, espíritos errantes e muitos outros. Dependendo das suas próprias ações (karma), os diversos seres podem reencarnar em qualquer um desses reinos. A vida em qualquer um desses reinos tem, é claro, um caráter de impermanência e, portanto, um determinado ente está fadado a renascer num outro reino. Nesse contexto, nem o inferno nem o céu são entidades permanentes.
Paralelamente a uma concepção complexa sobre a estrutura do cosmos, os Puranas possuem também uma concepção complexa sobre o tempo. O universo atravessa um ciclo de quatro eras ou yugas: a era da perfeição, satya yuga, que dura 1.728.000 anos humanos; o treta yuga, de 1.296.000 anos; o
dvapara yuga, de 864.000 anos; e a era das trevas, kali yuga, de 432.000 anos. Isso perfaz um total de 4.320.000 anos, período durante o qual o mundo se desloca, gradualmente, de um estado de perfeição para um estado de degeneração da moral, isto é, para um estado no qual o dharma¹ é esquecido.
O período total de quatro yugas é chamado de manvantara, idade ou tempo de vida de um Manu. Depois de mil manvantaras, que corresponde a um dia de Brahma², o universo será destruído pelo fogo ou pela água, dando início a uma noite de Brahma que se estenderá pelo mesmo período (isto é, mil
manvantaras), após o que o processo se reinicia por toda a eternidade. Não existe fim para este processo; nem outro propósito senão a diversão do Senhor.
Pode-se também verificar que a noção de Historicidade, tão essencial ao pensamento ocidental, principalmente a partir de meados da filosofia moderna, praticamente não tem peso na reflexão hinduísta aqui apresentada. A vida humana e seus acontecimentos não são relevantes no drama universal; este, por sua vez, não caminha para um estado de maior perfeição ou para uma situação de utopia: tudo se desenvolve e posteriormente decresce. Por isso a concepção de iluminação é essencialmente solitária, não envolvendo o compromisso de transformação social.
¹ Esse termo é o equivalente semântico em sânscrito mais próximo da palavra “religião”. Sua
conotação, entretanto é mais ampla e incorpora as noções de “verdade”, “dever”, “ética”, “lei” e
até mesmo “leis naturais”. O dharma é a força que preserva e mantém a sociedade e o
cosmos.
² Brahma é o primeiro Deus do Trimurti, a trindade do Hinduísmo (os outros deuses são Vishnu
e Shiva). Brahma é considerado, pelos hindus, a representação da força criadora ativa no
universo.
Fonte: FLOOD, GAVIN. Uma Introdução ao Hinduísmo: Editora UFJF, 2014.
P. 143 – 144, 151-155.
O número de universos parece ser incontável, imensurável ou incalculável, de acordo com a literatura purânica: Mesmo que num período de tempo eu possa contar todos os átomos do universo, eu não poderia contar todas as opulências que manifesto em meio aos inúmeros universos. (Bhagavata Purana 11.16.39). Além disso, escritores como Carl Sagan e Fritjof Capra reconheceram as similaridades entre as mais recentes descobertas científicas sobre a “idade do universo” e o conceito hindu de “dia e noite de Brahma”, que é muito mais próximo da atual idade do universo do que outras narrativas sobre a criação. Os dias e as noites de Brahma representam a visão de um universo criado pelo divino que está em permanente ciclo de vida, morte e renascimento. De acordo com Sagan: “O dharma dos hindus é o única das grandes religiões que se dedica à ideia de que o cosmo atravessa um infinito número de mortes e renascimentos. É o único dharma em que a linha do tempo corresponde à cosmologia científica
moderna. Os seus ciclos vão dos nossos dias e noites comuns, até o dia e a noite de um Brahma, com duração de 8.64 bilhões de anos. Mais longo que a idade da Terra ou do Sol, e cerca de metade do tempo passado desde o Big Bang.
SAGAN, CARL. Cosmos: Ballantine Books, 1985. P.258 - Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Hindu_cosmology
Shiva representa o aspecto transformador do Universo. Tem nas mãos um tambor, que marca o ritmo dos ciclos cósmicos. Também é representado pela figura de um dançarino, que simboliza a eterna impermanência e mudança da realidade.
Existiram, na Índia, observatórios gigantescos, construídos antes dos modernos telescópios e aparelhos científicos. Trata-se dos observatórios denominados JANTAR MANTAR, que significa aparelhos de cálculo. Eram gigantescos relógios de sol, ou outros aparelhos, alguns dos quais com mais de 20 metros de altura, que permitiam uma grande precisão na observação dos fenômenos astronômicos. O relógio de sol ali existente, por exemplo, tinha uma precisão de 2 segundos.
Na época em que foram construídos, no início do século XVIII, já existiam telescópios bem desenvolvidos na Europa, mas tal fato era desconhecido pelos construtores dessas gigantescas estruturas. É interessante destacar que essas construções eram destinadas principalmente à investigações astrológicas, tendo sido encontradas as marcações dos doze signos. Também se especula que tais estruturas foram feitas segundo a astronomia islâmica, ainda seguidora do modelo de Ptolomeu. Dessa forma, esses observatórios atenderiam aos objetivos a que se propunham, que não são os mesmos da moderna ciência cosmológica.
As imagens desse observatório podem ser encontradas na internet. Apresento abaixo duas dessas estruturas.
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