Bibliografia

 INVOCAÇÃO (Octavio Paz)

Shiva e Parvati: nos vos adoramos

não como deuses, como imagens

da divindade dos Homens.

Vós sois o que o Homem faz e não é,

o que o Homem há de ser

quando pagar a condenação dos quefazeres.

Shiva: teus quatro braços são quatro rios,

quatro mananciais.

Todo teu ser é uma fonte

E nela se banha a linda Parvati,

Nela se balança como uma graciosa barca.

O mar palpita sobre o sol:

são os lábios carnudos de Shiva que sorri;

o mar é uma vasta labareda:

são os passos de Parvati sobre as águas.

Shiva e Parvati:

a mulher que é minha mulher, e eu,

nada vos pedimos, nada que seja do outro mundo:

só a luz sobre o mar,

 a luz descalça sobre o mar e a terra adormecidos.

 

A relação entre os opostos orienta a construção do poema, traduzindo esteticamente o jogo das polaridades, essencial ao pensamento hindu. O Absoluto se diferencia em pares antagônicos e cooperativos; do Absoluto, desdobrado, derivam todas as polaridades do mundo fenomenal, corporificados nas figuras arquetípicas dos deuses. Revela-se, no poema, a ambivalência divino/humana; o casal celeste se humaniza e os suplicantes ascendem ao reino do sagrado, resgatando, assim, a humanidade dos deuses e a divindade dos homens.

 

Fonte: ALMEIDA, Lúcia Fabrini de. Topografia Poética. Octávio Paz e a India. SP, Annablume, 1995.

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